4 de outubro de 2011

Troféu

O troféu que eu fiz para nós de pele e ouro esteve em mãos erradas. Na verdade, foi vendido - e por menos do que valia. E todo homem que o tocou achou o paraíso na terra.

A rainha e a corte real aplaudiu, adorou; seus corações incharam demais sobre uma espada de misericórdia. Misericórdia isso e misericórdia aquilo, deixaram a justiça prevalecer. Mas eu só quero meu troféu de volta, ele não estava à venda.

Quando eu peguei meu troféu de volta demorou um pouco para polir, voltar ao preto. Quando eu coloquei de volta pra dentro e fechei a porta, percebi: um troféu de misericórdia não é mais um troféu.

3 de outubro de 2011

23 de agosto de 2011

Anything

And what's that saying again? They're only words and words can't kill me. Well, I can't even spell them and the cadence of what she says is swell. And don't look now, but there's a spider crawling on the wall behind you. Yep, I should have paid attention in algebra.

Let's talk about spaceships or anything, except you and me, okay?

Say hi to your mom.

4

Tanta filosofia só pra perder tudo. O celular, seu número, o frio na barriga e o Bowie. Mas meu número não mudou. E nada vai mudar.

7 de agosto de 2011

Todas as luzes

Cop lights, flash lights, spot lights
Strobe lights, street lights
All of the lights, all of the lights
Fast life, drug life, thug life, rock life
Every night, all of the lights

6 de agosto de 2011

Estou triste

E ninguém percebeu.

22 de julho de 2011

Interrompendo David Bowie

De vez em quando, vejo um telefone que pode ser interessante em uma placa pela cidade. Um delivery de uma comida que gosto, um apartamento pra alugar. Na pressa, jogo o número no celular com títulos sem sentido. E um dia, com nada para fazer, estava deletando esse números, aproveitando para apagar da agenda também pessoas que eu não converso mais e passei pelo seu telefone. Tive dúvidas. Jamais ia ceder à vontade de ligar, mas não sei se seria o caso de apagar. Na verdade, aposto que você já mudou de número, de aparelho, de cidade, de país. Mas gosto de deixar aquela sequência numérica salva ali. Só minha terapeuta pode explicar. Mas suspeito que é uma vontade de que, quando você ligar um dia, eu veja quem é antes de atender e, talvez, não atenda. É dessas situações assim, das que você só sabe como vai agir quando a ação realmente acontecer. Consigo imaginar meus 3 segundos de puro pânico olhando para o celular tocando e seu nome aparecendo ali e eu petrificado. Meu aparelho toca "Rebel, Rewbel", do Bowie, você sabia? Pois é. Ficaríamos eu e Bowie ali. Eu sem saber se interrompia a música e ele, sem saber do drama todo, tocando alegremente.

24 de junho de 2011

Direção

Eu sempre tive problemas com extremos que são igualmente prazerosos para mim. Metade do tempo que fiz terapia tratei disso. Da vontade que tinha de namorar com uma pessoa e da vontade que tinha de trepar cada dia com uma pessoa diferente. Da vontade de fazer academia e da vontade de ficar em casa só vendo televisão. Da vontade de comer coisas saudáveis e da vontade de só comer coisas gordurosas. Da vontade de tentar fazer algo no mundo das artes e da vontade de ter um emprego mais regular. O problema em que todas essas questões se baseiam é o controle. Sempre, em uma das opções, há um pouco mais da sensação de que minha vida não está sendo controlada inteiramente por mim. Eu tenho medo de um futuro incerto e acho que posso controlá-lo se agir de tal ou tal maneira. Uma bobagem, eu sei, mas não consigo evitar. E o empenho para agir da tal maneira que acho correta me falta às vezes. Eu me esforço e aparento estar bem, mas estou morrendo por dentro. Eu sou muito mais egoísta do que queria ser e é curioso como não me comove o sucesso das pessoas que eu não gosto. Já as que gosto... Não sei o motivo. É algo no mesmo nível de querer controlar a situação, eu acho. Não querer estar ao redor de quem eu amo e acho que é melhor do que eu. Mas também da dificuldade de amar quem acho pior que eu. E até parece que dá pra medir essas coisas! E ver gente que amo ou amei se dando bem e "passando na minha frente" me faz querer levantar daqui e ir chorar escondido ali no banheiro. Não farei isso, é óbvio. Tenho uma imagem a zelar para comigo mesmo, acho. Sei lá. Quanto mais eu penso, mais perco meu tempo. Se a gente foca nessa linha de chegada imaginária, não conseguimos ver a paisagem ao redor. Mas talvez a paisagem seja feia; talvez eu não a queira ver; talvez eu seja cego mesmo. O problema nunca é com o que sou, é com o que eu queria ser.

20 de junho de 2011

A dor da cura

Todos nós fazemos algumas coisas bem negativas em nossas vidas. Mas arrependimento não é ficar batendo em nossas próprias cabeças. Trata-se de transformar a transgressão em uma virtude. Nunca se trata apenas da realidade do 1% daquilo que fizemos. Trata-se de onde nossa cabeça se encontra. Trata-se do tipo de consciência que nasceu como resultado daquela ação negativa que praticamos. Se o que você fez na realidade do 1% era o que precisava acontecer para finalmente colocar sua cabeça no lugar certo para dizer “Não quero mais fazer isso. Chega disso!”, a transgressão se torna uma virtude.

31 de maio de 2011

O varal do vizinho

No café da manhã:

- Meu Deus do céu - disse a mulher, abismada, de pé - olha só os lençóis que a vizinha está colocando para secar no varal!
- Que tem eles? - perguntou o marido lendo jornal.
- Não estão limpos. Aliás, estão bem longe disso! Ela devia lavar tudo de novo! Nunca vi isso...

Na manhã seguinte:

- Não acredito - reclama a mulher - de novo os lençóis sujos!
- Deixe isso pra lá - resmungou o marido, sem ligar.
- Mas é que eles não estão limpos. Será que ela não percebe que a roupa de cama está manchada ainda?

No outro dia:

- Agora sim! - comemorou a mulher sorridente - A vizinha finalmente lavou as roupas direito, olha só. Tudo branquinho e limpo como devia ter sido desde sempre. Como será que ela conseguiu esse resultado de um dia pro outro?

O marido, sem desgrudar o olho do jornal, disse:

- Nada. Eu é que levantei mais cedo e limpei nossa janela.