31 de maio de 2011

O varal do vizinho

No café da manhã:

- Meu Deus do céu - disse a mulher, abismada, de pé - olha só os lençóis que a vizinha está colocando para secar no varal!
- Que tem eles? - perguntou o marido lendo jornal.
- Não estão limpos. Aliás, estão bem longe disso! Ela devia lavar tudo de novo! Nunca vi isso...

Na manhã seguinte:

- Não acredito - reclama a mulher - de novo os lençóis sujos!
- Deixe isso pra lá - resmungou o marido, sem ligar.
- Mas é que eles não estão limpos. Será que ela não percebe que a roupa de cama está manchada ainda?

No outro dia:

- Agora sim! - comemorou a mulher sorridente - A vizinha finalmente lavou as roupas direito, olha só. Tudo branquinho e limpo como devia ter sido desde sempre. Como será que ela conseguiu esse resultado de um dia pro outro?

O marido, sem desgrudar o olho do jornal, disse:

- Nada. Eu é que levantei mais cedo e limpei nossa janela.

29 de maio de 2011

18 de maio de 2011

As pessoas que nunca mais vi

O lugar onde dormi ontem é mais longe do meu trabalho e eu tive que acordar mais cedo. Estava bem frio e tive que pegar ônibus para ir trabalhar - algo que não fazia desde que saí de lá. Revi umas pessoas. Aqueles personagens do ônibus. Aquela mulher que sempre já está lá dentro, a outra que fica no mesmo ponto que você, aquele cara que sempre senta no mesmo lugar. Foi tenebroso e delicado, pois me senti bem. Senti algum conforto naquilo, alguma sensação de que não estou sozinho nessas pessoas que nunca mais vi.

9 de maio de 2011

A cenoura

Eu não vou me adaptar. Ando muito cansado. Não consigo descansar, não me deixam. Cansado de muito barulho, de muito silêncio, de todo lugar e de lugar nenhum. Esgotado e com falta de ar por causa dessa beirada que sempre me encontro, essa de pousar a felicidade num futuro inatingível.

Me sinto um cavalo com uma cenoura pendurada na minha testa. Minha fome me move pra frente, mas nunca chego nela, nunca acaba meu desejo e eu estou prester a morrer de fome. Odeio isso. São anos e anos pousando minha felicidade ali na frente. "Minha vida vai começar quando tal coisa acontecer".

Aí eu paro e tentar ver a felicidade ao redor. Eu consigo. Mas logo me dá uma agonia enorme de estar parado admirando a vista quando, na verdade, eu devia é continuar escalando. Aí dou adeus ao patamar e sigo para o topo. O topo que nunca chega. A cenoura que nunca alcanço. A plenitude que nunca sinto.

8 de maio de 2011

Quitte

And in cafes they look away
That is unless they look right in
(Ne Me Quitte Pas)